quinta-feira, 16 de abril de 2020

[Resenha] “Fated to Love You” – As 12 lições que tiramos do drama e levamos para a vida.

Informações Gerais do Drama
Título: Fated to Love You
Também conhecido como: You are my Destiny ou Unmei Kara Hajimaru Koi.
Descrição: Remake da obra taiwanesa “Fated to Love You”, baseado no manhua de mesmo nome.
Gênero: Comédia, drama, tragédia, cotidiano
Emissora: Fuji TV
País: Japão
Episódios: 10 episódios de 36 minutos cada
Tipo: Renzoku (dramas de 30 a 40 min por episódio)

Bem, depois de meses resolvemos voltar com as resenhas no blog. Recentemente assisti à versão japonesa do drama “Fated to Love You”.
Quem me conhece sabe o quanto eu amo essa história: já li o manhua original e assisti a versão coreana com muito amor e carinho.
Decidi  que apreciaria essa adaptação quanto antes, e foi o que fiz. Assisti rapidamente os 10 episódios da série, que me trouxe lembranças e sentimentos bons. Vamos ao que interessa.
Primeiramente, eu gostaria de dizer que se tem uma palavra que descreve bem esse drama é “sacrifício”, já que o casal principal se sacrifica pela pessoa amada, em um leve triângulo amoroso.
Em segundo lugar eu queria dizer que eu me empolguei tanto ao escrever essa resenha que vou ter que dividi-la em duas partes, com cinco tópicos no total.
Nessa primeira parte, farei uma breve introdução dos personagens principais da trama e logo falarei das importantes mensagens contidas no drama, motivo pelo qual essa postagem é nomeada de “As lições que tiramos do drama e levamos para a vida”
Comecemos com as estrelas da vez:
Sato Aya (Takimoto Miori) é uma funcionária de uma grande empresa na área administrativa, sendo prestativa e amiga, motivo pelo qual muitos se aproveitam da mesma para pedir-lhe pequenos favores como tirar 50 cópias de um documento, comprar comida ou pegar um café. Por esse motivo, ela é conhecida como “garota post-it”. Quando necessitam dela, todos a chamam, mas também é muito fácil descartá-la
Ichijo Kei (Kizu Takumi) é herdeiro de uma grande empresa, e, de início, não sabe que Aya é sua funcionária. Os dois acabam se encontrando por mero acaso, passam a noite juntos e logo descobre que está prestes a ter um filho com Aya. Entretanto, sua paixão é Anna, sua prometida (a princípio) e amiga de infância.
Shiraishi Anna (Ishikawa Ren) é uma garota sonhadora, que sempre quis ser uma grande bailarina, motivo pelo qual foi estudar em NY, através de um intercâmbio, deixando sua vida pessoal em segundo plano
Okamoto Hayato (Tokito Yuki) é o cavalheiro da friendzone desse drama. O melhor amigo de Aya, seu protetor e rival de Kei. Nessa temporada não foi explorada a relação de Hayato e Anna, como nas demais adaptações da trama.

Diferentemente das demais resenhas que faço uma explanação geral dos acontecimentos com uma leve introdução, nessa resenha, dividirei os assuntos em tópicos, dando meus pareceres sobre cada um deles.
Queria deixar claro também, que essa é apenas a minha opinião a respeito dos fatos, fique a vontade para tirar suas próprias conclusões. Ainda assim, espero que possam aproveitar ao máximo essa resenha, de maneira a proporcionar uma nova perspectiva para fazer-lhes refletir com profundidade os aspectos aqui tratados.
Mesmo que haja algo com que discorde, por favor, leia até o final, fiz com muito carinho e coloquei todo o meu coração e alma nessa resenha. Obrigada.

1.        Temas explorados na trama: As 12 lições que tiramos do drama e levamos para a vida
Nas entrelinhas do dorama, é possível encontrarmos passagens que, se puderem ser interpretadas mais profundamente, podem nos trazer valiosas lições que levaremos para a nossa vida. Em alguns itens dessa lista, demonstrarei de forma simplificada o quanto alguns valores como honestidade, honra e família, são valores milenares presentes tanto na cultura japonesa quanto na cultura oriental como um todo.

1.1.          Ser gentil, amorosa e honesta
Aya aprendeu desde cedo com seu pai que se ela fosse uma pessoa gentil e de coração puro, um “príncipe encantado a encontraria” como no Conto da Cinderela. Não tenho nem como discordar dessa fala. A melhor solução para tudo é sempre ser verdadeiro e honesto, com um coração amável
Aliás “honestidade” é um dos valores principais para os japoneses e com um significado bastante profundo, eu devo dizer. Ser honesto não significa apenas dizer a verdade aos outros, mas ser ser verdadeiro com o próprio coração, seguir a intuição e conseguir o que se deseja através do esforço e dedicação, com suas próprias pernas. Ser honesto também significa colocar em prática todos os seus princípios, e honrar sua palavra.
Essa é uma virtude enraizada na cultura japonesa desde a Idade Média, no mínimo. Uma das palavras chaves do Código dos Samurais é “Makoto”, vocábulo que significa literalmente “verdade”/”verdadeiro”, ou de maneira mais poética/profunda: “sinceridade absoluta”.
Isso quer dizer que um samurai não precisaria jurar/prometer como nós fazemos às vezes, porque uma vez que se comprometeu com algo, ele irá fazer. Assim, sendo, um dos princípios do Código dos Samurais era: “Siga sempre o caminho da verdade”

1.2.          Valorizar a família
Aya se lembra lucidamente das conversas que tinha com o pai e de tudo que ele lhe ensinou. Valorizar a família é o dever de todo ser humano na Terra, porque é a base da sociedade e é onde se forma o nosso caráter e os valores. Como já dizia Confúcio: “não é possível ensinar aos outros, se você não é capaz de ensinar sua própria família”.
Esta frase ilustra bem o fato de que as virtudes que guiam as pessoas provém da família, e que a primeira pessoa que deve ser instruída é seu ente querido, principalmente seu filho, que será seu herdeiro, no sentido mais profundo da palavra.
Através do drama “Fated to Love You”, podemos ver claramente que o nosso coração é o reflexo do coração dos nossos pais, e daquilo que eles nos ensinaram. O pai de Aya sempre lhe disse para ser honesta, generosa e amorosa, e isso se reflete em suas atitudes, sempre prestativa, se colocando no lugar dos outros, prezando o sentimento, as necessidades e os desejos alheios mais do que os seus próprios, de forma a demontrar o seu amor com pequenos atos de compreensão e carinho.

1.3.          Ter um herdeiro é continuar uma família
No início do drama, a avó de Kei, Ichijo Kaoru diz que ele só poderá herdar os negócios da família se estiver devidamente casado e tiver um filho.
Para muitos, isso pode ser apenas um mero clichê de dorama ou mangá, mas, na realidade existe um significado e uma importância bem maior nisso para os japoneses, sendo um pensamento de toda uma cultura.
Para os japoneses, ter um herdeiro é continuar o nome e a honra da família, ter alguém que continue a tradição, os valores prezados desde sempre pelos antepassados
Além do que, se um homem não for capaz de cuidar da família, também não será capaz de se responsabilizar pelas outras pessoas (funcionários de uma empresa, por exemplo).
A partir daí podemos enxergar a influência do confucionismo no pensamento oriental, como expresso na frase mencionada anteriormente: “não é possível ensinar aos outros, se você não é capaz de ensinar sua própria família”.
Ser um chefe de família ou de uma empresa significa ser capaz de ser um exemplo de respeito, honra, responsabilidade, honestidade e dignidade aos demais, porque a longo prazo, são os valores que guiarão esta e as próximas gerações, que formarão uma sociedade mais harmoniosa e digna.

1.4.          Ter autoconfiança
Apesar de benevolente, Aya tinha muito medo de expressar o que sentia ou o que pensava, para não parecer rude ou insensível aos olhos dos outros. Ao conhecer Kei, este lhe dá autoconfiança, para encarar as coisas de cabeça erguida, sem nunca deixar se abater e confiar em seu próprio potencial.
De fato, ser autoconfiante é a peça chave para conquistarmos nossos maiores sonhos, e nos realizar pessoal e profissionalmente.

1.5.          Não subestimar quem está ao redor
Yamaguchi, o advogado sem vergonha que convidou Aya para viajar, na verdade apenas queria uma companhia para sair, mas não a tratou devidamente. Ao invés disso, foi prepotente, tanto com ela quanto com Kei ao presumir que venceria a disputa de sinuca porque tinha “a deusa da vitória” ao seu lado. Kei, por outro lado, respondeu: “sabe por que você perdeu? Porque você deixou a verdadeira deusa da vitória partir”, referindo-se a Aya.
Moral da história: nunca subestime quem está ao seu lado, porque a mesma pode ser uma pessoa linda, por dentro e por fora, uma joia que apenas precisa ser lapidada.

1.6.          Construir uma família é uma dádiva, e honrá-la é um dever.
Ter um filho é uma dádiva, uma benção para os pais que podem finalmente constituir uma família, se completarem com um novo ser, que fará parte deles por toda a eternidade. Abortar significa tirar o direito à vida (inalienável a todo ser humano), tirar o direito de ser mãe e de dar à luz a uma nova vida que chega a este mundo, além de ser uma forma de renegar a responsabilidade de constituir e proteger a família, que é primordial em uma sociedade saudável.
No Japão, o aborto ou “esterilização forçada”, como eles chamam o processo cirúrgico para a retirada do neném,  só é legalizado em casos específicos. No “Maternal Health Act” (“Ato de Saúde Maternal”, em inglês), Capítulo II, Artigo 3, está escrito:

(1)   Um médico pode realizar a esterilização em uma pessoa que está sob as seguintes condições, ao obter o consentimento da dita pessoa e do esposo dessa referida pessoa (se uma pessoa não legalmente casada, incluindo uma pessoa que em termos práticos está em um relacionamento parecido com casamento com o dito indivíduo, o mesmo se aplica daqui em diante) se existir. Contudo, isso não se aplica a menores de idade.
(I)                Uma pessoa cuja gravidez ou parto possa colocar em risco a vida, e
(II)             Uma pessoa que atualmente já tem vários filhos, e cuja saúde corporal possa ser reduzida significativamente com cada parto.
(2)  Nos casos listados nos itens anteriores, o médico também deve realizar esterilização no cônjuge, nos termos das provisões de cada item do parágrafo anterior
(3)  A respeito do consentimento apresentado no parágrafo 1, o consentimento da parceira não é necessário se o esposo não sabe ou não consegue expressar a intenção da esposa.

Nota da Rebeca: Lembrem-se que na Ásia a maioridade é 20 anos 

1.7.          Sacrificar-se é uma prova de amor, ainda que machuque seu coração
Kei sempre priorizou Anna, colocando seus desejos e necessidades acima de seus próprios, tanto que deu todo o apoio emocional para ela realizar seu grande sonho de ser uma bailarina de renome internacional, e tolerou todas as furadas que ela deu, sempre pensando nela, entretanto a mesma não priorizou o relacionamento, nem se deu conta de tudo o que Kei estava fazendo por ela, enquanto ela só dava atenção única e exclusivamente aos seus anseios. Ironicamente, Kei acaba cometendo o mesmo erro com Aya, que prioriza as emoções e desejos dos marido, se colocando em segundo plano, sem notar o sacrifício e a boa vontade dela em fazê-lo feliz, uma vez que só pensava em proteger Anna e lutar pelo amor que tinha por ela. 

Aqui cabe a citação de uns versos da música “Story”, da cantora Ai Uemura:

“Às vezes nós machucamos os demais, enquanto somos machucados.
Por isso as cores que preenchem o nosso redor são distintas, mas...
Eu vou continuar a viver enquanto escrevo minha própria história”

A relação Aya/Kei/Anna ilustra que quando amamos alguém fazemos de tudo para que a pessoa amada seja feliz, , para que seja feliz em todos os momentos, independente de onde, com quem ou o que esteja fazendo. Isso requer compreensão e empatia, mas também cumplicidade e confiança, demonstrando seu amor e carinho das mais diversas formas

Por fim, vale lembrar: “O amor não é uma luta”, mas vale a pena lutar por ele.

1.8.          A alegria está nos pequenos gestos e momentos. O que vale são sentimentos
Quando Aya aceitou viajar com Yamaguchi, ela assim o fez porque pensou que pela primeira vez, alguém se interessava por ela. Quando Kei lhe deu autoconfiança, e a concedeu uma mudança de visual, ela valorizou o gesto, porque, ele pensou nela como uma pessoa digna, deu valor ao potencial dela, ao invés de enxergá-la como uma menina simples, ingênua e “post-it”.
Quando Kei lhe deu o cartão para que comprasse o que quisesse e pudesse apreciar a Tokyo Tower, o importante não era o dinheiro ou presente, mas o fato de que ele havia lembrado do aniversário dela, e que pela primeira vez, ela poderia comemorar seu aniversário.
Vemos a partir da personagem Aya que o que realmente importa não são bens materiais, e que a felicidade se encontra conosco quando reconhecemos mas os gestos e as boas intenções das pessoas em nos fazer felizes. São esses gestos e esses pequenos momentos de alegria que devemos guardar para sempre no coração.

1.9.          Aproveite hoje, para ter memórias amanhã
Em determinada cena do Episódio 7,  Aya diz a si mesma: “Tudo bem se forem apenas sete meses. Eu quero ter lembranças com Kei”. A lição que fica nessa passagem é: aproveite os momentos do presente (com a pessoa te correspondendo ou não), para que não tenha nenhum arrependimento no futuro, de não ter aproveitado todas as oportunidades de estar com a pessoa amada e/ou tê-la demonstrado seus sentimentos. Aproveite o agora, pois serão as lembranças do amanhã.

1.10.     O amor não avisa quando chega, e nem tudo gira ao nosso redor
Anna pensou que Kei sempre a escolheria como parceira e priorizou apenas a sua carreira profissional. Nesse meio tempo seu prometido encontrou Aya e se apaixonou por ela (mesmo que tudo tenha começado a partir de um contrato). O amor não espera por ninguém, nem avisa a hora de chegar, pois se manifesta sutilmente, aos poucos, com a convivência do dia a dia. Na relação entre Anna e Kei percebe-se que, devido ao distanciamento físico, também ocorre a distância emocional, de cumplicidade e amor.
Portanto se você realmente ama alguém, lute por esse sentimento, ou vai sofrer as consequências da famosa frase “a fila anda”, uma vez que nem tudo gira ao nosso redor, nem podemos ter tudo o que queremos e devemos saber lidar com as consequências de nossos atos

1.11.     Encare a realidade, ou algo pior pode acontecer
Anna quis a qualquer custo ficar com Kei, que não a correspondeu, por isso, contou uma mentira e lhe entregou um documento errado. Um pequeno mal-entendido levou a uma grave consequência, que foi a perda de um bebê.
Dessa atitude impensada de Anna, podemos tirar a seguinte lição: encare a realidade, ou algo pior pode acontecer no futuro. É bem melhor você aceitar a realidade tal qual ela é, mesmo que sofra, do que partir para vinganças e injustiças que podem interferir diretamente no destino de alguém.
Portanto, se você ama alguém verdadeiramente, respeite as escolhas dessa pessoa, é o mínimo que você pode fazer por ela.

1.12.     Saber recomeçar e seguir em frente
Depois de ter passado por muita coisa, a gente aprende a persistir e ser forte, superando todos os desafios que aparecem no meio do caminho. Tristezas, alegrias, decepções e conquistas fazem partes da vida de cada um de nós. Basta sabermos lidar com cada situação e tirar algum aprendizado. Para isso, muitas vezes, necessitamos de um recomeço, de um novo ponto de partida, investindo em algo em que possamos nos dedicar de todo o coração.
Se você chegou até aqui, parabéns pela paciência! 😉 
Na próxima postagem, começaremos do item 2 e iremos até o 5, os quais tratam da comparação das produções japonesa e coreana, tal como as minhas impressões finais da obra.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

[Resenha] Mundo Singular: entenda o autismo

Título: Mundo Singular: entenda o autismo 
Autores: Ana Beatriz Barbosa Silva, Mayra Bonifácio Gaiato e Leandro Thadeu Reveles
Ano: 2012
Páginas: 288
Editora: Fontanar – Selo do Grupo Companhia das Letras
Tema: Neuropsicopedagogia

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva juntamente com outros profissionais escreveu o livro “Mundo Singular”, relatando sobre as características do autismo,  as reações das crianças, os motivos que levam a isso e o desenvolvimento e a evolução de cada uma delas, sempre com exemplos claros e práticos, desde as pessoas que possuem o nível mais leve da síndrome, chamado pela autora de “traços de autismo”, passando pela Síndrome de Asperger até chegar no que se denomina como “autismo clássico”, o mais grave de todos.

As crianças especiais demoram um pouco para aprender certos assuntos, especialmente aqueles que não dominam, porém são inteligentes e esforçados e conseguem se superar a cada instante. Eu sou a prova de que, quando nos dedicamos, conseguimos realizar tudo o que queremos e ir mais longe do que as pessoas imaginam! Não é à toa que eu e minha mãe sempre dissemos que as pessoas especiais dão de 150 a 200% a cada vez que fazemos algo; 100% do potencial para mostrarmos a nós mesmos que somos capazes e os outros 50 a 100% para mostrar aos outros o potencial que não se enxerga à primeira vista!
Uma outra palavra que não me agrada é “à margem”. No próprio início do livro é dito que:

“(...) Geralmente está associada a alguém "diferente" de nós, que vive à margem da sociedade e tem uma vida extremamente limitada, em que nada faz sentido. Mas não é bem assim. Esse olhar nos parece estreito demais: quando nós falamos em autismo, estamos nos referindo a pessoas com habilidades absolutamente reveladoras, que calam fundo na nossa alma, e nos fazem refletir sobre quem de fato vive alienado.”

Concordo muito com os autores nesse trecho da obra. Muito, mesmo! Autistas são pessoas incríveis, com potenciais enormes. E, infelizmente, tenho que concordar com ela no quesito em que muitos ainda enxergam aqueles com necessidades especiais como alguém “marginalizado”. Mas eu detesto esse pensamento, acho completamente errado! Como eu gosto de pensar: “não estamos à margem da sociedade, nós fazemos parte dela”
E acrescento para dizer que se não fosse por nós, que temos as mentes excepcionais, não haveriam as fórmulas de física, nem os celulares, nem a Microsoft (para quem não sabe, o Bill Gates tem Síndrome de Asperger, tipo leve de autismo).
Os maiores gênios da matemática, física, informática, música e artes tiveram algum tipo de síndrome neurológica (não necessariamente autismo) e mesmo assim deixaram a sua marca no mundo e fizeram história. Por isso, eu digo que não estamos à margem da sociedade, pois somos nós que a construímos e a tornamos melhor.
Assim sendo, apelo para que mudem esse pensamento e comecem a enxergar o melhor nessas pessoas, ao invés de tratá-las como um excluído de quem precisa ter pena. Mudar o pensamento é o primeiro passo para uma inclusão social de verdade, pois assim, os demais passarão a valorizar seus talentos e habilidades, independente de qualquer condição.
No mais, voltando ao assunto especificamente do livro, gostei que os escritores abordaram temas como família (as mães que se cobram ou se culpam por algo), a escola e a leis que garantem a inclusão e os direitos dos autistas.
Eles explicam os comportamentos das crianças com autismo, e dá dicas para pais e professores colocarem na prática, a fim de que possam ajudar no desenvolvimento da criança. Com muito amor e dedicação, as crianças conseguem evoluir de forma eficiente aos poucos, passo a passo, principalmente nas áreas de linguagem, na qual geralmente se encontram as maiores dificuldades dos autistas.
Muitos possuem mais facilidade para exatas, uma vez que é mais prático e lógico. 2 + 2  sempre serão 4. É algo simples e objetivo, diferente do português, por exemplo, em que uma única frase possui inúmeras interpretações.
Por falar nisso, ressaltam várias vezes que as crianças autistas tendem a interpretar as coisas de maneira literal, e não compreendem duplos sentidos (ambiguidade) ou figuras de linguagem, como metáforas.
A exemplo disso, afirmou-se no livro que, se alguém disser a um autista: “sou todo ouvidos”, ele vai entender que você é um ouvido enorme, e não que o está escutando. Por isso, deve substituir essa expressão por algo como “eu estou te escutando”, para evitar mal-entendidos causados pela ambiguidade da mensagem.
Em “agora está na hora de fazer tal coisa”, a palavra “hora”, para a criança é interpretada literalmente como o horário marcado nos ponteiros do relógio, e não ao momento em si. Assim, deve haver cuidado com esse aspecto também.
Contudo, sob outro ângulo (pela minha interpretação), podemos analisar que os autistas são extremamente responsáveis, porque seguem uma rotina à risca.
O lado negativo é que eles são inflexíveis a mudança de rotina e tendem a reagir mal. Daí a importância de se compreender as necessidades deles. Os pais tem uma participação importantíssima na vida dessas crianças, e a primeira coisa é aceitá-las como são.
Não adianta se culparem pela situação, já que ninguém sabe a causa exata do autismo, e varia de caso a caso. Existe um lado genético sim, que é bastante estudado, mas não se sabe com exatidão de onde vem, diferentemente da Síndrome de Down, por exemplo, que há muito tempo se sabe que se trata de uma disfunção no cromossomo 21, o que explica seu nome científico (Trissomia do 21), tal como o Dia Internacional da Síndrome de Down (21/03)
Por fim, existem as leis que garantem os direitos dos cidadãos autistas tais como o  Benefício da Prestação Continuada (BPC), e o Artigo 54 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante em seu inciso III:
“atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”
Essa obra foi escrita em 2012. Desde essa época já foram sancionadas outras leis em prol das pessoas com necessidades especiais e para o autismo. Como exemplo, podemos citar:
A Lei nº 16.107, de 13/01/2016 válida no estado de São Paulo

“Proíbe a cobrança de taxa de reserva, sobretaxa ou quaisquer valores adicionais para matrícula, renovação de matrícula ou mensalidade de estudantes com síndrome de Down, autismo, transtorno invasivo do desenvolvimento ou outras síndromes e dá providências correlatas” 

Este ano, no dia 8 de janeiro de 2020, o Presidente da República sancionou a lei 13.977, conhecida como “Lei Romeo Mion” (em homenagem ao filho de Marcos Mion, que ficou conhecido por sua história “A Escova de Dentes Azul”)
A lei  institui a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA), sob expedição gratuita, garantindoatenção integral, pronto atendimento e prioridade no atendimento e no acesso aos serviços públicos e privados, em especial nas áreas de saúde, educação e assistência social.” (Art. III)

Além das legislações vigentes, a própria população vem se conscientizando sobre o autismo. Como prova disso, podemos citar um caso especial em Santa Catarina: uma professora da rede pública, Ruth de Cássia Rodrigues, fez uma “sala sensorial” em sua escola, com o objetivo de fazer compreender o autismo através da prática, de forma que os alunos entenderiam o porquê de os colegas com autismo sentirem medo, susto ou se incomodarem com barulho ou cheiros fortes, por exemplo.
Depois, os alunos fizeram um teatro sobre autismo. Estudantes de outros colégios também se interessaram pela ideia e tiveram a oportunidade de ter essa mesma experiência. Ao todo, 1300 pessoas, contando com pais alunos e convidados puderam passar pela “sala sensorial”, parte do projeto “Meu Mundo Azul”. Essa admirável iniciativa foi divulgada pela Deputada Estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL/SC) através de sua Moção n° 0508.5/2019, em homenagem ao Dia do Professor.
Como podemos ver, ainda há uma luz no fim do túnel, existem pessoas realmente boas de coração, que se importam e se interessam de verdade por uma causa social.
Espero que a cada passo, possamos progredir sempre mais!

Conclusão: uma recomendação essencial
O livro é bastante informativo, com informações claras e objetivas a respeito do autismo. Uma recomendação essencial de leitura para quem quer aprender sobre o assunto em suas mais variadas vertentes. Para mim foi um grande aprendizado e o primeiro passo para eu me aprofundar mais meus estudos. Pude conhecer melhor o comportamento dessas crianças e suas causas. (Aliás, foi por causa desta obra consegui analisar com mais precisão os 4 curtas metragens que indiquei no blog)
Me identifiquei com algumas passagens (ainda que poucas), motivo pelo qual tornou-se uma leitura mais prazerosa a cada página. Sempre que nos identificamos com algo, o sentimento é bem mais profundo! Para quem tem familiares ou alunos autistas, está aí uma excelente recomendação de livro! Mesmo para quem não tem parentes ou alguém próximo que seja autista, sugiro que leiam, porque segundo estatísticas recentes, 1 a cada 58 crianças pertencem ao Espectro Autista.
Aos observações que fiz são relacionadas aos meus sentimentos, emoções, conhecimentos e pesquisas. Compartilhar o que sentimos na pele, ou desabafar sobre aquilo que guardamos no coração é sempre bom! Espero sinceramente que as minhas humildes e honestas palavras tenham sido capazes de lhes tocar da melhor maneira possível, depois de abrir todo o meu coração para vocês (que está mais parecendo um tratado sobre autismo do que uma resenha comum de um livro. Geralmente escrevo umas 3 páginas, essa deu um pouco mais que o dobro)
As observações sobre as leis atuais foram meramente para fins de conhecimentos gerais, porque acho que quem está de alguma forma engajado na inclusão social deve saber das leis que nos regem, nos atualizando a cada instante! (Na postagem, mencionei uma das leis estaduais de São Paulo, mas para aqueles que eventualmente moram em outro estado, e/ou tiveram curiosidade, deem um Google e entrem na página oficial da Assembleia Legislativa de seu respectivo estado)
Por fim, a esperança está em cada um de nós, na vontade que temos para mudar o mundo ao nosso redor. O futuro, somos nós que construímos!
Até a próxima indicação de leitura!

domingo, 5 de abril de 2020

[Resenha] A escova de dentes azul


Informações Gerais
Título: A Escova de Dentes Azul
Autor: Marcos Mion
Ilustradora: Fabiana Shizue
Gênero: Literatura Infantil
Editora: Panda Books
Páginas: 43

Toda criança sonha em ganhar infinitos presentes do Papai Noel. Abrir caixas com embrulhos coloridos e fitas brilhantes com um brinquedo ou um aparelho eletrônico, pelo qual se esperou o ano inteiro para receber é o desejo de todas elas.
Espere aí. De quase todas.
Com Romeo foi diferente.
Quando tinha 9 anos, Romeo pediu de presente de Natal uma escova de dentes azul. Esse fato, que emocionou toda a família, se tornou uma crônica publicada por Marcos Mion no dia 27/12/2015, intitulada “Lições que aprendi com meu filho autista”, em seu Facebook, que teve uma recepção bastante positiva e na época, até viralizou na mídia. 
Li a postagem e me emocionei com as palavras do Mion. Deu para sentir, através daquele texto, o quanto ele aprendeu com seu filho, seu mestre, como ele mesmo se refere ao Romeo.
Em 2016, a história “A Escova de Dentes Azul” se transformou em um livro. Mas eis aí um “pequeno grande” diferencial: não se trata mais de um relato pessoal, mas uma narrativa voltada ao público infantil.
Como o próprio Mion disse em uma entrevista, a ideia de destinar esse livro as crianças foi com o propósito de que é através delas que criaremos um mundo melhor e sem preconceito. O livro foi um sucesso em vendas, e foi adotado em várias escolas com material didático
Tenho que dizer que, apesar de ser um livro infantil, eu me emocionei desde as primeiras palavras da dedicatória:
“Para meu Romeo.
Sem você, teria passado minha vida sem conhecer esse mundo que preenche minha alma, me coloca os pés no chão, exige de mim apenas meu melhor e ensina o que realmente importa pros seres humanos. Ou seja, o que seria de mim sem você? Obrigado meu filho, meu irmão de alma.
Te amo. Daqui até até a Lua...”
Essas palavras foram o suficiente para balançar meu coração e derramar lágrimas silenciosas e intensas, repletas de admiração, ao perceber o amor genuíno de um pai por seu “anjo azul”
Me encantou com a mensagem que a obra quis passar, de forma sucinta, divertida e tocante.
O mais interessante é que o autismo é explicado de maneira positiva, como um “super poder”, uma “super habilidade”, sendo esse o principal diferencial.
Acompanhado de ilustrações fofas, delicadas e bastante coloridas, esse livro vai te fazer refletir e parar para pensar que o mais importante não é o quanto temos ou deixamos de ter, mas as pequenas coisas dadas com muito amor.

sábado, 4 de abril de 2020

[Resenha] O que me faz pular

Informações Gerais
Título: O que me fez pular
Autor: Naoki Higashida
Primeira publicação: 2007 (Japão)
Lançamento no Brasil: 20/03/2014
Editora: Intrínseca
Páginas: 192

Naoki Higashida tinha apenas 13 de idade quando escreveu “O que me fez pular”. O livro, que possui 192 páginas, é um compilado de perguntas e respostas que costumavam fazer a ele, por ser autista. Naoki possui autismo severo, o que comprometeu sua fala, mas esse fator não o impediu de se comunicar e ter uma vida normal. Pelo contrário, ele se superou, encontrou sua própria forma de se expressar e de lidar com as situações
Deu para sentir o quanto ele estava sendo sincero e honesto ao escrever cada resposta, cada linha. Eu, como uma pessoa com necessidades especiais (paralisia cerebral + TDAH), sei como cada pequena conquista do dia a dia, para nós, significa uma grande vitória, um sinal de superação às adversidades que possamos encontrar nesse caminho tortuoso e maravilhoso, que nós mesmos construímos a partir de nossas vivências e aprendizados, e montamos como milhares de peças de um enorme quebra cabeça.
Tem coisas que só quem sente na pele sabe. Eu tenho uma história completamente diferente das experiências do autor deste livro. Tem fatos com os quais eu não me imagino estar inserida, e não tenho a mesma sensibilidade para a natureza que ele tem, por exemplo. Autistas possuem uma conexão incrivelmente inexplicável com a natureza; é como se eles fizessem parte dela, e como se ela os protegesse, reconhecendo uma alma pura e verdadeira.
Apesar das nossas diferenças, - que são incontáveis –, ainda assim, me identifico com parte dos sentimentos de Naoki. Eu, mais do que ninguém, sei como é se sentir solitário, rejeitado, como necessitamos e queremos ter carinho, amor e atenção, mas, principalmente, compreensão. Queremos que as pessoas compreendam as nossas condições e que não desistam de nós, pois o apoio da família, dos amigos e das pessoas próximas a nós, é aquilo que nos motiva. E a compreensão é o que nos faz sentir parte de um grupo (sentir como pessoas “normais”) e ter esperanças para seguir em frente.
Não estou dizendo isso para me vitimizar, até porque odeio pessoas que se vitimizam e fazem mimimi por qualquer motivo que seja. Todos devemos conquistar nossos sonhos pelos próprios méritos, pelo esforço, sendo que os que têm “necessidades especiais”, possuem ainda mais potencial de sobra para dar a volta por cima, é só querer.
Por isso vencemos as batalhas. Porque temos força de vontade para enfrentá-las! É como disse a Avril Lavigne na música “Warrior”: “Eu escolho as minhas batalhas porque eu sei que eu vou vencer a guerra”.
E na outra estrofe: “(..) E eu estou mais forte, eu luto pela minha vida. Eu conquistarei a cada vez”
Sempre tive a família ao meu lado, especialmente minha mãe, e Naoki também, como relatado nas entrelinhas de seu livro. Mães são heroínas eternas, que cuidam de seus anjos com todo amor e dedicação. Não é para puxar saco, mas devo dizer, que nós, pessoas “especiais” somos realmente especiais, porque temos a alma mais “limpa” e honesta (não sabemos mentir, e se alguém o faz, identificamos na hora, então, fiquem espertos!)
Outro ponto com o qual me identifiquei foi em relação a “escrever no ar”. Eu tenho essa mania de “escrever no ar” as coisas que penso, imagino ou lembro (às vezes até meu nome, quando reflito sobre mim mesma. É estranho, mas acontece)
Naoki também “escreve no ar” repentinamente sobre as coisas que lembra. Confesso que fiquei bastante surpresa, ao perceber que eu não era a única com esse costume! Entretanto, no caso de Naoki, ele o faz como uma maneira de “conectar as suas lembranças”, como num quebra cabeça que ele precisa resolver no momento, enquanto eu “escrevo” qualquer coisa que me vem à mente.  
Conforme o andamento do livro, em cada resposta que dá, Naoki esclarece o porquê os autistas têm determinados comportamentos. Nesse sentido, a leitura desta obra me proporcionou um grande aprendizado. Afinal, saber como alguém pensa é essencial para que sejamos compreensivos e tenhamos empatia com o próximo.
A simplicidade e a objetividade é o ingrediente que encanta e traz beleza a uma escrita fluida e cativante.
Como se não bastassem os relatos de sua vida cotidiana (e as reações que teve em cada ocasião), ao final do livro Naoki nos apresenta uma narrativa ficcional de sua autoria. O protagonista deste pequeno conto é um garoto chamado Shun, que a meu ver, é o alter-ego do próprio Naoki.
Às vezes a ficção nos ajuda a expressar sentimentos, emoções, pensamentos, sensações, filosofias, através de um contexto paralelo que, para o leitor torna-se agradável e até mais fácil de se identificar. Digo isso, porque às vezes escrevo textos reflexivos ou ficcionais, sendo que nesses últimos, coloco um pouquinho de mim em cada personagem que crio (quem sabe um dia eu faça meu próprio alter-ego também. Contar a minha história de maneira leve seria bastante divertido)
Mas chega de falar de mim, não é mesmo? 😊
O que importa é que vocês que estão lendo esta postagem consigam se identificar e se colocar no lugar do escritor. Torço para que esta pequena resenha os motive a ler, conhecer, repensar e aprender (comigo e com Naoki).
Espero também que a leitura de “O que me faz pular”, lhes tragam bons ventos, que os façam abrir a mente para o novo, que vejam o brilhantismo e o lado positivo de uma pessoa especial, ao invés de se prenderem a rótulos negativos como “fulano não consegue/não vai conseguir fazer isso”, “ele tem limitações para tal coisa”, etc.
E lembrem-se sempre: Todos somos igualmente capazes, e tão humanos e “normais” quanto vocês, que estão ao nosso redor, em nosso meio.
E não somos dignos de pena. Somos extraordinários!

quinta-feira, 2 de abril de 2020

[Pequenas Histórias, Grandes Emoções] 4 curta metragens asiáticos emocionantes sobre autismo


Sempre quis fazer uma categoria para o blog sobre curtas-metragens, e nesta data especial, é o momento perfeito para começar com o pé direito.
Dia 02/04 é comemorado o Dia Internacional de Conscientização ao autismo, e Abril é considerado o “mês do autismo”, por isso, neste mês que se inicia, faremos resenhas especiais a respeito do tema. Nesta pequena, porém informativa postagem, recomendaremos humildemente 4 histórias incrivelmente emocionantes contendo personagens autistas (os dois primeiros adultos e os dois últimos crianças), analisando os traços desta síndrome retratados em cada uma das produções a seguir, e seus respectivos contextos,

1.    Guang: Um filme musical sobre autismo
Assunto: O retrato de como a família lida (ou não) com um autista

Wen Guang tem como sua única família e suporte, o seu irmão mais novo. Guang tem 27 anos de idade, e está à procura de um novo emprego, porém não consegue, pois tem dificuldade de se socializar com os demais ao redor. A socialização é uma das principais dificuldades que um autista possui, e faz parte da “tríade” de característiscas típicas da síndrome as quais precisam ser superadas, juntamente com linguagem e comportamento
No entanto, como o próprio personagem se define no filme, ele é alguém “simpático, amável e esforçado”. Verdade seja dita, as pessoas com autismo são puro amor e sentimento, sempre muito verdadeiras.
Atente-se para o fato de que “Guang” significa “Luz” em Mandarim (uma das poucas palavras que sei), referindo-se que os autistas são seres humanos iluminados
No curta-metragem, são exploradas todas as características da “tríade” com mais enfoque nas habilidades sociais.
Guang não estabelece contato visual direto com seu irmão, e ao invés disso, apenas olha para baixo. Isso acontece porque, para os autistas, o contato visual direto parece intimidador
Ele também não o responde quando perguntado, ou quando é lhe dado alguma informação, caracterizando a dificuldade da comunicação que muitos tem. Para que haja uma melhor comunicação, um autista precisa de muito estímulo e amor desde cedo, mas fica subentendido que devido à correria e às obrigações do dia a dia,  seu irmão mais novo não tem tempo nem paciência para estimulá-lo a conversar, e apenas troca poucas palavras com ele.
É perceptível que Guang possui o que os profissionais chamam de “ecolalia”, um nome especial que se dá ao fato de a pessoa repetir a fala de alguém. Nesse caso, o irmão de Guang disse: “Pizza na quinta-feira”  e ele repetiu exatamente isso.
No que diz respeito ao tema do curta-metragem, o mesmo ilustra as relações de família, e como os famíliares reagem e lidam com o autismo. Por conta do estresse diário, apenas o fato de Guang ter esquecido um compromisso, enfadou o mais novo, que descontou nele todo o “peso da responsabilidade” de sustento. Ainda que fosse apenas um momento de raiva, isso mostra o quanto os familiares tem dificuldades em lidar com uma pessoa especial e aceitar sua condição.
Autismo não é doença, ainda que seja chamada de “síndrome” (eu mesma me refiro assim, quando falo no assunto), é apenas uma condição de uma pessoa extremamente iluminada e talentosa que apenas precisa de atenção e compreensão.
O diretor desse filme o dedica ao seu irmão autista.

2.    I Believe – Um curta metragem de Singapura
Assunto: Relações de amizade

            Esse curta-metragem me chamou a atenção desde o primeiro momento. O cenário predominante é uma igreja, e a primeira frase já me impactou muito positivamente, arrancando-me um sorriso levemente intenso: “Somos todos iguais aos olhos de Deus”
            Essa máxima é uma verdade inquestionável. Deus ama todos os seus filhos da mesma forma, à Sua imagem e semelhança. Deus nos ama igualmente, com todas as nossas “perfeitas imperfeições”
            E nesse caminho – por vezes tortuoso – aqui na Terra –, é onde encontramos as oportunidades de nos relacionarmos e fazermos amizades, mas acima de tudo, de sermos mais humanos a cada passo.
            Isso é o que Anthony ensina a Peter, quando entra repentinamente em sua vida, em uma das reuniões com os irmãos da igreja. O padre o apresentou e de antemão já avisou ao grupo que Anthony é um homem autista, porém nenhum dos presentes havia convivido com um autista antes, e consequentemente não souberam lidar bem à primeira vista, tendo presenciado os traços característicos de quem é portador do Transtorno do Espectro Autista (TEA)
            Anthony se apresenta repetidamente inúmeras vezes aos colegas, e não consegue interagir apropriadamente com os demais, que desejam uma conversa fluida e normal. Ele também diz coisas aleatoriamente e do nada, o que faz com que as pessoas estranhem seu comportamento diferenciado
            É típico das pessoas com autismo dizerem as coisas repentinamente, por ser algo do momento, e não conseguem se expressar tão bem quanto gostariam. Também tendem a repetir coisas que viram na televisão ou em filmes, ou algo que ouviram de outra pessoa. Prova disso é que Anthony repetiu várias vezes que fumar faz mal à saúde, porque havia visto na TV um caso de morte por tabagismo e porque sua mãe havia lhe advertido dos malefícios do mesmo.
É nítido que Anthony tenta se enturmar, e se esforça para isso, nem que tenha que pedir o número de celular insistentemente ou interromper uma conversa entre amigos.
Peter se estressa com Anthony assim como os demais, mesmo que não se estressem, o olham diferente pela sua condição, porém ele não percebe as emoções alheias e as expressões faciais dos mesmos.
Essa característica é comum entre autistas que não conseguem “decifrar as emoções” nem “ler a mente humana”, porque são complexas demais, e o autista é em si uma pessoa bem mais objetiva e prática do que uma pessoa sem necessidades especiais
Por não conseguirem entender com propriedade os sentimentos dos outros, podem continuar falando sobre um assunto de seu interesse, sem perceber que o interlocutor está entediado com a conversa, fato que é ilustrado no curta-metragem, porque Anthony não percebe o desconforto de Peter “de primeira” e continua falando sobre o que aprendeu
Devido a esse e outros motivos é que devemos ter paciência e carinho para dar aos autistas, e compreender que eles podem sim, se sociabilizar mesmo que leve um tempo.
Uma cena que me chamou atenção foi quando uma jovem modelo que frequenta a igreja repreendeu Peter pela sua atitude com Anthony, fazendo Peter enxergar o quanto havia errado com o amigo.
“Amigo”. Essa é uma boa palavra para descrever um autista. Uma pessoa com autismo é o melhor amigo que alguém pode ter. É carinhoso, amoroso, gentil, honesto, humano.
O final do filme termina com Anthony dedicando sua reza a Peter, ato que me deixou extremamente emocionada!
No fim das contas somos mesmo “todos iguais aos olhos de Deus”, e são nesses momentos que percebemos o quanto somos agraciados por termos um anjo da guarda bem ao nosso lado.

3.The Buddy  – Todo mundo enxergou esse menino autista como um desajeitado. Um colega de classe enxergou um amigo.
Assuntos: Relações de amizade e autismo na escola

Esse curta-metragem de Singapura já começa como uma introdução super linda e emocionante, a qual vale muito a pena reproduzir aqui: 
“Na infância de cada um de nós, sempre haverá um amigo do qual nós lembraremos. Um amigo especial. Essa, é a nossa história”
Apenas com essas singelas palavras, meu coração se contraiu e arrancou-me lágrimas. Essa, não é apenas a história de dois garotos de ensino fundamental. Essa é a história de uma eterna amizade, e acima de tudo, uma valiosa lição de vida.
É um curta-metragem baseado na história real de Hidayat e Tam.
Tam é o típico garoto autista: tímido, introvertido, quieto, que “imita” os outros (para comer, por exemplo), que é incompreendido, mas muito inteligente. A beleza do filme está no fato de que é narrado em primeira pessoa, pelo próprio Hidayat, relatando de maira simples e honesta, as vivências com seu amigo especial, Tam, e tudo o que passou para poder ajudá-lo da melhor forma.
Mesmo quando Tam se alterava, por não ter controle emocional (comum entre autistas), Hidayat não o ignorava, não o julgava, nem brigava com ele. Pelo contrário, mostrava-se preocupado com seu bom amigo.
Nas entrelinhas do filme, uma menina questiona a Hidayat o porquê de fazer a tarefa de casa com Tam: “você sabe que ele fala sozinho. Ele não conversa com a gente”
Essa frase tem um fundo de verdade: as crianças autistas não fazem contato visual e tem dificuldade de se comunicarem (como já foi dito nas demais análises), então é comum que essas crianças prefiram ficar “no seu próprio canto” repetindo coisas que ouviram ou aprenderam, para si mesmas, o que configura ecolalia.
Ainda assim, Hidayat com toda a sua sensibilidade foi capaz de se comunicar com Tam, não apenas com palavras, mas com gestos e com olhares carinhosos. Com muito carinho e dedicação, o autista consegue estabelecer contato visual, e foi o que aconteceu com Tam. Conseguiu olhar nos olhos de Hidayat, pela confiança que tinham entre si, através da convivência do cotidiano.
A amizade entre eles é a maior prova de que com um pouco de amor e dedicação, tudo é possível  
Esse é um curta-metragem que teve como objetivo ilustrar o autismo na escola na década de 1990, numa época em que essa síndrome ainda não era muito estudada e divulgada
No final, há uma nota emocionante da mãe de Tam que diz: “Tam entente que Nurhidayat é um amigo, mas eu o considero mais do que isso. Eu acho que ele é uma dádiva para o meu filho”

            4 . From the Heart – Um comercial da 7Eleven baseado em história verídica
Assunto: A importância de uma professora para a formação de uma criança autista.


Essa história tailandesa é na verdade um comercial da 7Eleven para promover o dia dos professores, e demonstrar o quanto o carinho e a dedicação de um(a) professor(a) pode mudar a vida de aluno. O vídeo começa com a chegada de um novo menino, aparentemente de uns 7 anos, chamado Shao, e que acabou de se transferir para uma nova escola.
Não estabelece contato visual e nem dialoga a primeira vista, sendo este último o motivo pelo qual Sumet, garoto da mesma classe o chamou maldosamente de retardado, fazendo todos rirem do novo integrante.
A professora por sua vez, repreendeu os alunos e passou a prestar atenção a cada mínimo detalhe nas ações de Shao. O menino é extremamente metódico, tem que organizar seus materiais escolares do mesmo lado, e de forma que fiquem em fileiras de mesmo tamanho. Para comer, a comida deve estar sempre em sentido horário, nunca anti-horário
Tem dificuldade de aprender e não se interessa pelas aulas. Por conta disso, a professora começa a estudar o quadro do autismo, e descobre que, quanto mais lúdica e interativa for a aula, mais o aluno prestará atenção. Em linhas gerais, pessoas com algum tipo de distúrbio ou síndrome neurológica tendem a serem mais práticas, objetivas e captam melhor as informações através do lúdico
No autismo porém, há o hiperfoco da criança, um tipo de “habilidade especial” dos autistas, principal fator da genialidade dos mesmos. O quadro clínico do garoto ainda é configfurado como autismo-savantismo
Síndrome de Savant é uma síndrome neurológica cuja principal característica está na capacidade de captar uma informação com facilidade. Portadores de Savant são verdadeiros gênios, principalmente  nas áreas da música, das artes e da matemática, além de terem uma memória fotográfica absurdamente extraordinária, a ponto de captarem até os mínimos detalhes.
Como Shao, o protagonista do filme tem autismo-savantismo, isso significa que além do hiperfoco tipicamente autista, ele ainda possui uma memória fotográfica excelente. Nesse caso fictício, Shao se destaca na matemática, e sua habilidade mais do que especial é relativa aos números. Aprendeu rapidamente a tabuada e decorou um calendário inteiro vendo apenas uma vez.
É importante salientar, no entanto, que nem todas as crianças autistas são savantes e vice e versa, porém esse quadro clínico de “autismo-savantismo” existe, pois há casos de crianças que são portadoras de mais de uma síndrome (eu sou a prova, muito embora não seja autista)
Quanto ao resto do enredo em si, é mostrado o comportamento de uma criança autista e sala de aula, e as reações que tem ao ser provocada, engatando no filme a temática do bullying
Ao se quebrar uma rotina, o autista entra em contradição, pois não se acostuma nem aceita fácil mudanças no dia a dia, como  ilustrado na história, ao trocar de professora, e consequentemente de metodologia, que é bem diferente da qual estava acostumado. Com a volta de sua querida professora, Shao se acalma e volta à normalidade.
O mais lindo de ver é que essa professora se dedicou ao máximo por um aluno em necessidade, e conseguiu provar o quanto ele é talentoso e digno de respeito e reconhecimento, como todos. E ela fez isso tudo, de coração.
Se todas as pessoas tivessem o coração aberto, e a consciência que suas pequenas atitudes podem ajudar a traçar o destino de alguém, este seria um mundo bem melhor.

Essa foi a mensagem que quis transmitir a todos vocês
Espero que tenham gostado das indicações e que cada uma delas possa ter tocado o coração de vocês, para que um dia vocês também possam colaborar para que esse seja um mundo melhor, mais livre de preconceitos, e mais repleto de amor e carinho. Amém.